Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Museu de Arte Nova, em Aveiro

Lançamento de livro e inauguração de exposição sobre Francisco da Silva Rocha

Encontra-se patente no Museu de Arte Nova (antiga Casa Major Pessoa), em Aveiro, até ao dia 15 de Março, a exposição documental “Francisco da Silva Rocha: arquitecto e artista 1864-1957”.

Inaugurada no dia 24 de Janeiro, a exposição visa analisar a vida e obra de Francisco da Silva Rocha, desde a sua componente como arquitecto ligado ao movimento Arte Nova, à sua obra como pintor e relações familiares e amigos, muitos dos quais artistas e individualidades da altura, ou seja, os aspectos biográficos mais relevantes.

A abertura oficial e apresentação da monografia contaram com as presenças do presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Élio Maia, do vereador do pelouro dos Assuntos Culturais, Miguel Capão Filipe e da comissária da exposição, Maria João Fernandes.

Na mostra estão expostos objectos como sejam desenhos, plantas, pintura feita por Francisco Silva Rocha e documentação original da época – fotos e correspondência. Quase todos os objectos são propriedade dos descendentes e algumas pinturas são de coleccionadores particulares.

Também no dia 24 procedeu-se ao lançamento e apresentação do livro “Francisco da Silva Rocha - 1864-1957 Arquitectura Arte Nova - Uma Primavera Eterna”, da autoria de Maria João Fernandes, bisneta do arquitecto.

 

O livro de Maria Fernandes: Francisco da Silva Rocha (1864-1957) “Arquitectura Arte Nova - Uma Primavera Eterna” é simultaneamente a merecida homenagem a um dos expoentes da cultura do início do século XX e ao modelo de beleza e equilíbrio a que deu forma na sua arquitectura, sob o signo da Arte Nova, mas também o hino a um tempo esquecido e à sua esplêndida e luminosa herança, dádiva a uma cidade onde natureza e cultura se conjugam, da casa que foi de Mário Pessoa, obra-mestra de Silva Rocha, Museu de Arte Nova (antiga Casa Major Pessoa), onde está patente a exposição que lhe é dedicada.

 

Informações complementares:

- “Francisco da Silva Rocha - 1864-1957 Arquitectura Arte Nova – Uma Primavera Eterna” por Maria João Fernandes.

- “Silva Rocha é o protagonista maior da construção e do carácter da cidade de Aveiro da sua época” - Álvaro Siza.

- “Uma personalidade estética tão singular como a do arquitecto Silva Rocha, não apenas profeta mas autor das belas expressões da Arte Nova de que se honra Aveiro” - Eduardo Lourenço.

O livro de Maria João Fernandes é promovido e editado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro e coordenado pela equipa da Biblioteca Municipal. É a primeira monografia de um arquitecto à luz da Arte Nova, apresentada por Álvaro Siza Vieira. Tal como este acentua no seu prefácio: “Maria João Fernandes, com um percurso de crítica de arte, afirmado ao longo destes últimos 30 anos, produziu a primeira definição da Arte Nova em Portugal, que a coloca e depois da sua apresentação pública no primeiro encontro internacional sobre Arte Nova em Portugal, como a verdadeira responsável pela sua defesa e divulgação. Juntando pontos de vista já anteriormente defendidos por grandes especialistas como Manuel Rio-Carvalho, José-Augusto França e José Manuel Fernandes, contrariando a lógica que pretende negar a autonomia e o valor da nossa cultura, pautando-a por modelos próprios e não segundo a adequação e a subserviência a modelos estrangeiros, a autora partiu para a caracterização dos vectores fundamentais deste estilo no nosso país: o eclectismo crítico, um conceito definido pelo arquitecto do modernismo catalão, Domènech i Montaner e desenvolvido pelo crítico Ignasi Solà-Morales, um conceito com o qual a nossa arquitectura Arte Nova e uma parte da Arte Nova internacional tem grandes afinidades, a valorização do arquétipo do Barroco - que segundo Eugénio D’Ors nasceu em Portugal - tal como o caracteriza José Fernandes Pereira, mais decorativo, do que estrutural, as variantes de interpretação segundo os materiais regionais, como Reynaldo dos Santos observou em relação ao Românico e finalmente aquilo que constitui uma das suas maiores e mais belas especificidades, a exuberância da decoração artística do azulejo e da serralharia, contribuindo para a imagem que nos oferece de ‘uma Primavera eterna’, título do presente livro que é simultaneamente uma síntese do seu conteúdo poético”.

 

Notas biográficas. O círculo de amigos

Francisco Augusto da Silva Rocha é o autor do mais coerente e original conjunto de arquitectura Arte Nova em Portugal que levou um especialista como José-Augusto França a considerar Aveiro capital deste estilo no nosso país, um estilo de cuja defesa, a partir de 1996, se tornou o baluarte.

Numa primeira parte, os capítulos iniciais, a autora através de um minucioso conjunto de notas biográficas dá vida ao percurso público de Silva Rocha, criador do ensino industrial de Aveiro, professor e director durante várias décadas da Escola Industrial e Comercial Fernando Caldeira, que inaugurou em 1903 num edifício do seu risco, sobre os arcos de antigos moinhos de maré, num terreno pertença do seu sogro João Pedro Soares, pai de Olinda Augusta Soares que em 1896 se tornou sua esposa. A 21 de Setembro de 1897 nascia a sua única filha, Maria Luísa, que preservaria a sua memória e muitos dos essenciais documentos que hoje devolvem à cidade de Aveiro uma obra intemporal.

Ao mesmo tempo, noutro capítulo, o círculo de amigos ilustres ajuda, através da sua correspondência com o arquitecto aveirense, a dar vida a uma figura cuja competência profissional, talento artístico e excepcionais qualidades humanas ressaltam dessa forma pela pena do químico Charles LePierre, do grande escritor Jayme de Magalhães Lima ou do insigne escultor Teixeira Lopes.

A admiração dos seus contemporâneos, como o grande crítico António Arroyo, o músico Viana da Mota, ou Alberto Souto, é ainda bem visível no conjunto de soberbos retratos (reproduzidos no livro) entre escultura, pintura, desenho e caricatura que lhe dedicaram artistas como Sousa Caldas, Cândido da Cunha, Lauro Corado ou Armando Boaventura.

 

Silva Rocha ilustrador e pintor

A polifacetada personalidade artística de Silva Rocha está ainda documentada pelos seus trabalhos como ilustrador, onde ressaltam os desenhos e aguarelas para o artigo de Luís de Magalhães: “os Barcos da Ria de Aveiro”, a convite de Rocha Peixoto, publicados em 1889 na Revista Portugália e os desenhos que realizou para a ementa do jantar de homenagem ao rei D. Manuel II em Aveiro (27/11/1908).

Relativamente à pintura de Silva Rocha, Maria João Fernandes situa-a entre a continuidade de uma tradição naturalista e uma modernidade emergente que luta por se afirmar, ainda muito próxima do modelo naturalista, mas ensaiando nos seus exercícios sobre a luz e a cor, os primeiros passos de uma poética impressionista que incidiu sobre o retrato e a pintura de paisagem e dos tipos populares da região.

À primeira categoria pertencem os retratos do sogro João Pedro Soares, da filha Maria Luísa e do pai do seu genro Justino, Francisco Maria Simões, de todos o mais trabalhado e conseguido, nas belíssimas variações tonais de luz e sombras. Os retratos de tipos populares mostram uma grande sensibilidade para a expressão da paisagem que se revela plenamente nos grandes espaços despojados da terra ou do mar. É no profundo sentimento de comunhão com a natureza, verdadeira essência da poesia, que a autora encontra, aliás, o elo entre a pintura e a arquitectura de Silva Rocha.

Céus ardentes sobre a terra acesa de um íntimo fulgor, o mar cintilante de todas as jóias da luz realizam a íntima alquimia do espaço que no conjunto da obra do pintor e do arquitecto é sugerida.

 

Silva Rocha arquitecto

Tal como nesta obra se demonstra, Francisco Augusto da Silva Rocha, como arquitecto, é o criador de um padrão de beleza e totalidade que reflecte simultaneamente a harmonia e a ordem da natureza, próprias de um modelo clássico (evocando o ideal da divina proporção, a regra de ouro praticada no Renascimento) e a fugacidade e o esplendor das suas formas, características de um modelo barroco.

Estes modelos revelam-se em períodos distintos da sua obra, autonomizando-se e dialogando. A gramática dos símbolos está presente quer no agenciamento das formas e dos volumes dos seus edifícios, quer nos detalhes da sua linguagem ornamental. Manifestam a ligação a um modelo clássico, a Escola Industrial Fernando Caldeira (1903) e o Hospital da Misericórdia de Aveiro (1900). Em 1908, com o edifício desenhado para Mário Belmonte Pessoa, actual Museu de Arte Nova, afirma-se a vertente barroca e ornamental da obra de Silva Rocha, não abandonando, no entanto, princípios classicizantes, a valorização de uma ordem estrutural e da harmonia das proporções.

Uma e outra destas vertentes, em dinâmico diálogo contribuirão, numa fusão progressiva, para a criação do muito particular e original estilo de uma gramática Arte Nova a que Silva Rocha deu forma, entre nós, no período exacto em que esta floresceu no resto da Europa. A autora analisa de um ponto de vista formal e poético outros edifícios, tão emblemáticos, como a casa do autor, na Rua do Carmo nº 12, a do nº 146 na Rua Cândido dos Reis, a casa dos nºs 5, 6 e 7 da Rua de João Mendonça, o palacete que pertenceu a Francisco Maria Simões, no Largo de Salreu, o antigo Balneário de Espinho, o edifício que actualmente abriga a Fundação Jacinto de Magalhães da Universidade de Aveiro ou aquele onde passou a funcionar o Museu da Cidade.

A alquimia interior que preside à criação de Silva Rocha, de expressão simbólica, materializa-se, adquirindo uma expressão plástica na sua arquitectura que apresenta no motivo das rosas em cruz, em dois dos seus edifícios, um dos mais belos símbolos da Arte Nova, encarada esta num plano internacional.

 

 

publicado por quiosquedasletras às 07:11

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