Domingo, 16 de Novembro de 2008

Bronca da semana

Adega Cooperativa de Vilarinho do Bairro pode estar em pré-falência

A Adega Cooperativa de Vilarinho do Bairro corre risco de fechar portas. A notícia já não representa novidade para as gentes da freguesia, principalmente para os viticultores, que de acordo com o presidente da Direcção, Manuel Seabra, contribuíram este ano para prejudicar a situação, por terem entregue as uvas que produziram noutros operadores de mercado, muitos deles privados, que devido à falta de produção pagaram as castas a preços bastante convidativos.

Por seu turno, os produtores queixam-se do valor que lhes foi pago pela última campanha, de 2006, na casa dos 8/9 cêntimos por quilograma (kg) de uvas, argumentando que têm de olhar pela vida, caso contrário “mais vale abandonar as vinhas”, dizem.

Filipe Neto, do lugar da Poutena, freguesia de Vilarinho do Bairro, é sócio da Adega Cooperativa há cinco anos. Admite que a crise na viticultura tem-se agravado desde 2005, não se verificando problemas apenas com a Adega de Vilarinho, mas com outras por todo o país. Aponta 2006 como um ano “péssimo”, com uvas fracas, de graduação inferior a 10 graus, o que levou a que o vinho não tivesse tanta qualidade e houvesse mais dificuldades em vendê-lo.

“A situação agrava-se porque ficam por vender milhões de litros de vinho de anos maus, como foram 2005 e 2006, porque as uvas foram muito más. Cerca de 75% da produção de 2006 tinha menos de 10 graus! Estas castas não podem dar um vinho de qualidade, o que obriga a Adega a pagar menos pela matéria-prima”, explica Filipe Neto.

Diz desconhecer a situação de pré-falência da Cooperativa da qual é sócio e argumenta: “A Cooperativa de Vilarinho tem vinho em stock, que dá para pagar o que deve à banca. A situação de crise que se vive é que é preocupante”.

No entanto, Filipe Neto, que este ano continuou a levar as suas uvas à Adega - contrariamente a muitos associados -, defende que para haver viabilidade os sócios têm de o fazer, porque “se deixam de levar para lá as uvas é muito mau! Está agora a vender-se vinho a mais do dobro do ano passado, mas muitos sócios não entregaram uvas, porque foram mal pagas. Só que esqueceram-se que esse pagamento foi relativo a um ano mau, e que as uvas não podiam ser mais bem pagas”. O associado frisa: “Além de tudo isto, esses sócios esquecem-se que estão a pôr em causa a Adega e quem lá ficou”.

 

“É diferente pagar pouco de não pagar”

Filipe Neto sublinhou que a Adega de Vilarinho tem tudo pago com os sócios. E diz que é “diferente pagar pouco de não pagar”. Os sócios “devem lutar. Todos temos necessidades, mas também temos de defender o que é nosso”.

Manuel Joaquim Coelho tem 70 anos. É natural do lugar da Pedralva, freguesia de São Lourenço do Bairro, mas reside em Vilarinho, onde tem cerca de dois hectares de vinha. Porque em outros locais pagavam as uvas a melhor preço do que na Adega de Vilarinho, mesmo sendo associado, e porque entendeu que se estava a prejudicar, não as levou para a Cooperativa. “Mas é difícil arranjar onde as aceitem. Não é em qualquer lado”, afirma.

A esposa de Manuel, Maria Ducília Ferreira, vai lembrando que as uvas que têm entregue têm para cima de 10, 11 e 12 graus. E que o preço que está a ser pago pela Adega é demasiado baixo para “uvas boas”.

Manuel Coelho conta que este ano quase não se viam engaços na Adega de Vilarinho. Mas se “continuam a vender vinho, porque nos pagam tão mal?”, questiona. “Quem vive da agricultura assim não se safa. Nem é pelo trabalho que temos nas vinhas, porque é a família que as trata e faz a vindima. Acabamos por não gastar. Mas o sulfato é muito caro. E receber algum dinheiro acaba por ser importante para pelo menos pagar o nosso sacrifício”, adianta.

Abel Jesus, 85 anos, residente em Vilarinho do Bairro, é mais um associado que lamenta a situação da Adega Cooperativa de Vilarinho do Bairro. Tem 1982 pés, que plantou em 1992. Lembra que há sete anos pagavam tudo no mesmo ano e que em 1996 pagaram 63,25 escudos por kg. “Agora pagam muito menos... E naquela altura tudo era mais barato! Eu continuo a levar para lá as uvas porque somos quatro famílias a fazer a vindima e como é o tractor do meu cunhado (Manuel Coelho) que leva tudo, não há grandes gastos. Doutra forma seria incomportável”, explica.

Abel Jesus diz que a Adega pagou o ano de 2006 e que para o fazer teve de pedir dinheiro à banca, como Manuel Seabra informou. “Mas o vinho tem saída e se o vendem, será que o fiam todo?”, questiona o associado, dizendo que se a Adega deixar de pagar, abandona a vinha. “Eles têm é de se mexer, para evitar o que aconteceu este ano e não deixarem fugir mais gente”.

 

Manuel Seabra dá explicações

De acordo com Manuel Seabra, cerca de 30% dos associados “fugiram da Adega”, porque houve privados a precisar de comprar uvas e a oferecer preços “elevadíssimos, por haver uma quebra muito grande na produção deste ano”.

O dirigente esclarece que “este património é dos sócios. E com isto só o prejudicaram. Há anos mais rentáveis, outros menos. É necessário perceber isto. Eu aceitei vinho em 2006 que era muito fraco. Entre 6 e 9,9 graus recebemos 75% da produção nesse ano. Entre 10 e 13 graus recebemos apenas 25% e com mais de 13 graus 0,22% da produção total em 2006”.

O valor base que foi pago nesse ano foi de 8/9 cêntimos, sendo que, de acordo com Manuel Seabra, foram valorizadas em 10% as castas com mais de 10 graus; em 20% as castas entre 11 e 12 graus e em 30% as castas com mais de 13 graus.

“Houve quem abandonasse a vinha. Mas muitos associados fugiram, porque lhes ofereceram mais dinheiro e não houve discernimento para ver que estavam a prejudicar a própria casa”, sublinhou o dirigente da Adega de Vilarinho.

De acordo com Manuel Seabra, a perspectiva de venda para este ano é boa: “Vendemos tudo e não chega, precisamente por não nos terem entregue uvas nesta campanha. Teremos assim de vender mais em garrafa e menos a granel”.

Quanto à pré-falência, Manuel Seabra falou de uma auditoria que está ainda a decorrer, pedida pela Direcção, antes do dia 2. “Os primeiros resultados mostram que há viabilidade. Mas se os sócios continuam sem entregar uvas e a fugir, a falência é o caminho mais certo. Depende deles”, admite o dirigente.

 

Eleições dia 30 de Novembro

A última Assembleia-Geral, que teve lugar a 2 de Novembro, tinha como objectivo realizar eleições para os novos órgãos dirigentes da Adega. Tal não foi possível, porque ninguém apresentou listas. Desta forma, foi marcada nova sessão, desta vez extraordinária, para o dia 30 de Novembro, para eleger os novos órgãos sociais.

Manuel Seabra, há 21 anos à frente da Adega, disse que não vai voltar a candidatar-se, garantindo que não vai apresentar alguma lista, a não ser que seja “forçado a fazê-lo”. E deixa um recado: “Quem gosta de falar e criticar a Adega de Vilarinho é que devia ter a coragem para apresentar uma lista no dia 30”. (Foto: Davide Silva)

 

 

publicado por quiosquedasletras às 07:53

link do post | favorito
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 


Pesquisar

 

Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Últimas Letras

Aeróbica reuniu cerca de ...

Câmara Municipal de Aveir...

Seminário Internacional “...

Luís Fernandes, da d’Orfe...

Voluntários ajudam a limp...

Recortes de jornais desde...

Rota da Lampreia e da Vit...

Câmara Municipal de Anadi...

Candidaturas ao Fundo Soc...

Reunião aberta para a ini...

Letras na gaveta

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Letras

todas as tags

Banca de Notícias

Contacto

quiosquedasletras@sapo.pt
blogs SAPO

subscrever feeds